No ano passado, Call of Duty: Black Ops 7 decepcionou a crítica e a comunidade com uma história fraca, cheia de invencionices de roteiro, e missões ruins em uma campanha curta. Já Call of Duty: Modern Warfare 3, antecessor direto de MW4, também teve o modo história duramente criticado, principalmente pelo predomínio das Open Combat Missions, missões em mapas mais abertos que reaproveitavam áreas de Warzone.
Em MW4, a Infinity Ward parece ter prestado atenção a essas críticas e entregou uma campanha sólida – revolucionária? Não, mas competente e imersiva na medida certa. As missões são lineares, como nas campanhas tradicionais de Call of Duty, com set pieces poderosas e uma história interessante, embora tão inofensiva quanto as anteriores.
O jogo conta duas histórias que correm em paralelo, mas que são intimamente correlacionadas. Foto: Igor Almenara/VOXL/Estadão
Neste review, enquanto o modo multiplayer e o novo DMZ não são liberados para o público, o VOXL avalia as qualidades e os defeitos da campanha single-player de Call of Duty: Modern Warfare 4. No texto, eu evito spoilers, mas esteja ciente que pode estragar algumas surpresas.
História para veteranos e recém-chegados
Desta vez, a história se desenrola em duas frentes paralelas: uma invasão da Coreia do Sul pela Coreia do Norte e os desdobramentos da trama de Price e Ghost dos games anteriores – o que é um grande acerto. O público recém-chegado acompanha a história de um esquadrão sul-coreano, formado por personagens inéditos, enquanto quem é das antigas confere o cânone clássico da série. As trajetórias dos dois grupos se cruzam em vários momentos, reforçando a proporção da guerra e dando sentido aos atos dos antagonistas.
Para evitar spoilers, não vou destrinchar detalhes sobre a trama neste review. Contudo, é possível afirmar que ela oferece impacto em boa medida, apresenta desfechos dignos para vários personagens importantes e prende o jogador de um capítulo a outro. Como sempre, a experiência é parecida com a de um filme de ação.
O esquadrão da Coreia do Sul é jovem, ainda pensa na vida após a carreira militar e não conhece as minúcias da guerra. Foto: Igor Almenara/VOXL/Estadão
Os personagens do esquadrão da Coreia do Sul são interessantes e carismáticos. A maioria é jovem, inexperiente na guerra e evidentemente ingênua, contrastando significativamente com a postura mais rigorosa e amadurecida de Price, Ghost e Laswell. Eles ainda pensam no próprio futuro, em largar a vida militar e seguir outra carreira, e demonstram sensibilidade e medo da guerra. Em certas cenas, é evidente que estão ansiosos e sob forte estresse antes de chegar ao front, balançando as pernas ou comendo de forma exagerada.
Quanto a Price e Ghost, a trama mantém a proposta estabelecida em Call of Duty: Modern Warfare (2019). Eles são agentes de campo de uma guerra entre poderosos, e “se sujam para que o mundo permaneça limpo”. Suas decisões e interferências impactam a relação entre as Coreias, que aqui servem como peões numa guerra por proxy. Além da dupla, Gaz, Valeria, Kate Laswell e Makarov também têm papéis relevantes na trama.
John Price é um dos protagonistas do jogo. Foto: Igor Almenara/VOXL/Estadão
O antagonista central deste novo título é o personagem interpretado pelo ator Mads Mikkelsen, o Arqueiro. Ele não é um soldado, mas uma figura política de grande importância para a Rússia e um dos motores do conflito entre as Coreias.
MW4 tem campanha bem curta
Infelizmente, a campanha de MW4 é curta e não oferece tempo suficiente para desenvolver os personagens tanto quanto deveria – parece mais um capítulo do que uma história inteira. Toda a jornada single-player pode ser concluída entre 7 e 9 horas de jogatina, dependendo da dificuldade e da dedicação aos objetivos secundários.
O personagem de Mikkelsen, por exemplo, não tem tempo de tela suficiente para desenvolver suas motivações para além do patriotismo e de outra surpresa – que, por sinal, é um retcon. Dá para sentir que ele é um homem poderoso, influente e ambicioso, mas acaba sendo um vilão de uma nota só. Algo similar acontece com as autoridades da Coreia do Norte – o novo líder supremo, Ri Seung-Ho, e sua irmã, Ri Ju-Young. Ambos têm mais tempo de tela e presença na trama, mas são igualmente pouco desenvolvidos.
O personagem de Mads tem potência, mas é pouco explorado e desenvolvido. Foto: Igor Almenara/VOXL/Estadão
Essa limitação também afeta os personagens clássicos. Price e Ghost são antigos companheiros de guerra, mas estão separados desde os eventos de MW3. A tensão entre os dois é pouco explorada e o fim do jogo, apesar de apropriado, perde força emocional justamente porque a história não tem espaço para florescer neste último capítulo.
No mais, MW4 é um jogo violento e trata de assuntos para o público adulto, com violência gráfica em um nível que não me lembro de ter visto em outro título recente da franquia. A campanha não chega nem perto do tom mais sombrio e sensível dos jogos originais – lembre-se de “No Russian” – e evita paralelos mais explícitos com conflitos do mundo real, mas tem seus méritos.
Quanto a localização brasileira, Call of Duty: Modern Warfare 4 é inteiramente dublado em português brasileiro, exceto pelos trechos propositalmente em coreano. O trabalho da dublagem nacional é excelente e consistente em todos os trechos, entregando intensidade nos momentos ideais e emoções apropriadas que não descolam o jogador da experiência.
Gameplay de Call of Duty moderno
O novo MW4 mantém o design de gameplay introduzido em Call of Duty: Modern Warfare (2019) e amadurecido nos jogos seguintes. As animações dos personagens são impecáveis, os ambientes são lindíssimos e a direção sonora é potente.
Não há muitas novidades nesse aspecto, exceto pelos sistemas específicos de MW4. O título aposta em um novo sistema de movimentação, com parkour mais fluido e movimentos adicionais, mas sem a velocidade exagerada dos jogos de 2024 e 2025 – o Omnimovement de Black Ops 6 não está aqui, por exemplo.
Call of Duty: Modern Warfare 4 é cheio de set pieces marcantes e muito imersivas. Foto: Igor Almenara/VOXL/Estadão
Frequentemente, o jogador deve explorar essas mecânicas para concluir perseguições a pé – subindo em canos, deslizando sobre objetos e agarrando-se a bordas – ou escalar torres, escadas e outras estruturas para alcançar o objetivo.
Na missão “Isolamento”, outros sistemas são apresentados, como os espaços da mochila e o gerenciamento de recursos. O trecho aparentemente serve como uma introdução ao modo de extração DMZ de MW4, mas não é uma reciclagem feita de qualquer jeito. Trata-se de uma única missão, que pode ser concluída rapidamente com o recurso de viagem rápida e é coerente com o roteiro, sem parecer uma adição forçada de mundo aberto.
Há também o sistema de stealth. A Infinity Ward optou por uma mecânica de furtividade bem tradicional, em que um indicador na tela mostra o nível de atenção de um inimigo sobre o jogador – branco mostra que você é visto pelo inimigo; amarelo indica que ele começou a suspeitar de algo; e vermelho sinaliza o combate.
Não há muita profundidade aqui, na verdade, mas o conjunto é suficiente para tornar a gameplay mais justa, previsível e menos frustrante. Finalmente, dá para optar pela furtividade sem depender da sorte ou de um sistema mal acabado.
A gameplay oferece um bom nível de variedade, dentro do escopo linear tradicional de Call of Duty. Foto: Igor Almenara/VOXL/Estadão
Mesmo assim, que fique claro: a inteligência artificial dos inimigos continua praticamente a mesma. Eles avançam contra o jogador sem muito senso de autopreservação, sofrem de amnésia constantemente e, quando enfrentados de uma forma não prevista – com uma sniper no topo de uma torre, por exemplo –, podem simplesmente congelar e não fazer nada contra o jogador.
Um fechamento digno para um reboot controverso
Lá em 2019, o reboot de Modern Warfare serviu como uma renovação importantíssima para a franquia da Activision. Era um arco conhecido, mas com mudanças suficientes para apresentar uma história inédita e uma releitura dos eventos do original. Complementando o sucesso daquele lançamento, veio Warzone e, com ele, uma forte crise de identidade dentro do universo da franquia.
A história oferece desfechos dignos para personagens importantes, mas de forma acelerada. Foto: Igor Almenara/VOXL/Estadão
Nos títulos seguintes da série Modern Warfare, a proposta pareceu se alinhar cada vez mais às expectativas em torno de Warzone. Não à toa, as missões abertas lembravam conteúdos reciclados do battle royale, enquanto a história parecia buscar um rumo dentro desse contexto.
Em MW4, a Infinity Ward parece enfim encerrar o arco narrativo do reboot. O jogo inteiro proporciona uma sensação de clímax, dando um desfecho às trajetórias de personagens que escaparam da morte por tantos títulos. Quem pega o bonde andando também tem espaço para aproveitar a trama, graças ao esquadrão sul-coreano, carismático o suficiente para cativar um público menos apegado aos personagens clássicos – leia-se, jogadores mais novos que não acompanharam a trilogia original.
Esse esforço para atrair um público maior é evidente, principalmente no desenrolar de algumas missões. Há até uma sequência que funciona como uma versão moderna e retrabalhada do desembarque do “Dia D”, momento histórico da Segunda Guerra Mundial representado em vários jogos de Call of Duty, incluindo títulos lançados décadas atrás.
Há uma missão que reimagina os eventos do Dia D da Segunda Guerra Mundial, mas sob o contexto moderno da guerra coreana fictícia. Foto: Igor Almenara/VOXL/Estadão
Vale a pena?
Call of Duty: Modern Warfare 4 entrega uma boa campanha, com uma sensação convincente de encerramento e um roteiro competente, mas sem momentos memoráveis o suficiente para marcar a franquia. Outro problema é a curta duração, que, como consequência, torna impossível recomendar a compra do jogo apenas pela experiência single-player.
Enquanto o multiplayer e o modo DMZ não são liberados para o público, é possível avaliar apenas a campanha. Por isso, a nota abaixo considera somente a história de Call of Duty: Modern Warfare 4 e não representa a avaliação final do game.
Nota da campanha: 80
Prós:
- Missões bem desenvolvidas, com variedade de gameplay em determinados trechos;
- Animações, gráficos e sons muito bem trabalhados;
- Sequências de ação e set pieces impactantes;
- Novos personagens carismáticos e convidativos para quem chega agora à franquia;
- Excelente dublagem em português brasileiro.
Contras:
- Campanha curta, com duração de 7 a 9 horas;
- Antagonistas e personagens importantes pouco desenvolvidos;
- Contexto de guerra pouco desenvolvido e sem muita inspiração.
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Uma cópia de Call of Duty: Modern Warfare 4 foi concedida ao VOXL para realização desta review. O jogo foi executado no PC, equipado com um processador AMD Ryzen 5 3600, Nvidia RTX 4070 Super, 16 GB de RAM e SSD.